entrevista outubro: Marcelino Freire

Outubro: Balangandans entrevista o escritor Marcelino Freire

Marcelino Freire nasceu na cidade de Sertânia, alto sertão de Pernambuco. Vive em São Paulo desde 1991. Escreveu, entre outros, Angu de Sangue (Contos, 2000, com fotos de Jobalo), eraOdito (Aforismos, 1998 – 2002) e BaléRalé (Contos, 2003), esses publicados pela Ateliê Editorial, São Paulo. Em 2005, lançou pela editora Record o livro Contos Negreiros, com o qual ganhou o Prêmio Jabuti 2006. Em agosto de 2008, lançou, também pela Record, o volume de contos RASIF – Mar que Arrebenta, com gravuras de Manu Maltez. Em 2002, idealizou e editou a “Coleção 5 Minutinhos“, inaugurando com ela o selo eraOdito editOra. É um dos editores da revista de prosa “PS:SP“, lançada no ano de 2003, e um dos contistas em destaque nas antologias Geração 90 (2001) e Os Transgressores (2003), publicadas pela Boitempo Editorial. É criador e curador de vários eventos literários, entre eles, a Balada Literária, que reúne dezenas de escritores nacionais e internacionais pelo bairro paulistano da Vila Madalena. Recentemente, seu blog eraOdito ( www.eraodito.blogspot.com ) foi apontado, em pesquisa feita pela revista Bula, como um dos vintes blogues mais influentes da rede.

Nós do Balangandans estivemos com Marcelino, que nos contou um pouco sobre sua vida literária, sobre sua produção e sobre seu mais recente livro, Rasif – Mar que arrebenta. Leia abaixo a íntegra de nossa conversa:

Balangandans: O espaço dado à literatura contemporânea no mercado é ocupado majoritariamente por narrativas de qualidade estética duvidosa. A literatura de maior qualidade estética não chega ao grande público: acaba restrita a um público “especializado”, composto por escritores e estudantes de literatura. Tal fato interfere em seu processo de criação?

Marcelino: “Na hora que eu estou escrevendo não há um público dirigido. Não posso pensar minha literatura como “estou escrevendo para”, isto é de alguma forma meio castrador, resulta em produto pronto. Eu quero, quando escrevo, me vingar de alguma coisa, mostrar o que está me agoniando, contar aquela história que eu estou descobrindo, que as palavras vão me dizendo: este é meu barato na hora de escrever um conto.

Mas quando o livro está pronto, aí eu vou a cata do leitor. Vou a saraus, festas, onde me convidam, para espalhar o máximo que eu puder o conto que escrevi, nesse caso a literatura contemporânea (pouquíssimo conhecida). Quem lê neste país? Quando o cara vai começar a ler não vai procurar um livro meu, vai procurar o livro de alguém que ele já ouviu falar… Tem que lembrar que estamos num país onde pouca gente lê e que você precisa ir a cata deste leitor.

Neste caso, eu percebo que quando eu escrevo, eu tenho que gostar, tenho que me tocar primeiramente, não pode ser hermético, não pode ser chato (uma coisa que fique ali só pro meu mundo). Eu quero comunicar, quero dar um grito e que este grito seja ouvido, tenha ressonância do leitor. Este lado de “quero comunicar de alguma forma” me aproxima um pouco os leitores. Eu percebo pelos leitores que me procuram, que vão desde pessoas que estão começando a ler, até pessoas que têm uma bagagem maior: e estes contos comunicam tanto para um quanto para outro.

Se há um anseio meu é que um conto seja lembrado, que pessoas possam trabalhá-lo em sala de aula, que as pessoas gostem. Eu quero ter o meu “Apesar de você”, sabe? Como uma música de Chico Buarque que todo mundo canta, eu quero um conto meu que todo mundo conte por aí.”

 

Balangandans: Você se apresentou ao lado da cantora Fabiana Cozza, por ocasião do lançamento de seu livro Contos Negreiros. Gostaríamos que você falasse  sobre esse intercâmbio entre música e literatura e nos dissesse em que medida a música popular brasileira influencia sua produção literária.

 

Marcelino: “Este trabalho que faço com a Fabiana Cozza é um trabalho exatamente desta frente de batalha, de colocar a literatura em outros meios, comunicar. Sou muito amigo da Fabiana há muito tempo, acompanhava a carreira, e eu queria muito fazer um trabalho com ela. A gente faz o Cantos negreiros, enquanto eu conto uns contos ela canta uns cantos, e a gente fez esta mistura de literatura e música. Porque eu acho que quanto mais a literatura se juntar com outras artes (cinema, teatro, música, pintura, etc), mais ela atingirá outros públicos. Neste sentido de colocar a literatura de uma forma viva, pulsante, na vida das pessoas.

 

Agora, a música popular brasileira sem dúvida teve muito influência naquilo que eu escrevo. No meu primeiro livro, que por sinal é um horror, um livro de contos (eu devia ter colocado o livro um pouquinho no formol), que foi importante para exorcizar alguns contos que estavam ali na gaveta, chama-se AcRústico. Mas eu fazia uma brincadeira, neste primeiro livro, com a MPB: cada conto tinha uma epígrafe de uma música porque eu ouvi muito João Bosco, João Gilberto, Luiz Gonzaga e vários outros, e eu percebia que isto era uma influência no meu trabalho, esta cantoria. Agora mesmo eu citei Chico Buarque. Eu queria que um conto meu fosse uma música de Chico Buarque, que todo mundo pudesse cantarolar. 

 

O que eu escrevo é música, vem como uma música uma primeira motivação, uma palavra, alguma coisa que fica ali cantando no meu juízo. Eu lembro perfeitamente, muito pequenininho, de minha mãe cantava Luiz Gonzaga na cozinha o tempo inteiro. Quando estava muito alegre cantava as coisas mais alegres do Luiz Gonzaga, quando estava meio triste cantava outras coisas mais tristes. Eu lembro bem da voz dela cantando… E o nordestino é muito musical, né? Tem muita cantoria no juízo, muita fala. Eu, o que eu escrevo, tem uma toada qualquer ali, um cordel qualquer ali. Acho até que o que eu escrevo tem o “espírito jornalístico” do cordel. O cordel fala da morte de não sei quem, Lampião foi pro céu, mataram um presidente, alguém foi atropelado, meu trabalho tem um certo “que” deste jornalismo de cordel.”

 

Balangandan: O seu primeiro livro, eraOdito, é composto de poemas visuais. No entanto, seus contos possuem uma forte carga de oralidade. Em que medida o poeta visual influencia o contista?

 

Marcelino: “Eu na verdade quando fiz o eraOdito, fiz mais como se fosse um livro de humor, não pensei como um livro de poesia, sabe? Porque se fosse um livro de poesia, seria um livro fraco… Não estou dizendo que ele é ótimo. Era uma curtição, aquilo era para tirar as coisas do lugar. Eu pegava uma frase famosa, um lugar comum, um ditado, uma máxima e transformava esta máxima numa mínima. Minha intenção era desdizer e, neste sentido, os meus contos desdizem. Meus contos estão sempre procurando óticas diferentes, ângulos diferentes, destoando, provocando outras leituras. Os meus personagens também não estão no lugar que você pensa que eles estejam, eles sempre estão desambientados, desenraizados, deslocados.

 

O eraOdito também desloca um discurso pronto, o politicamente correto fica completamente incorreto. As minhas palavras também não estão no lugar, quando estou escrevendo percebo que aquela palavra não está, ela pula de um canto para outro. Aquela palavra também está possibilitando que a outra frase venha e a outra frase venha, e que a história seja revelada a partir destes deslocamentos. E, neste sentido, eu também sou uma pessoa deslocada, desenraizada. Quando eu achava que ia ficar em Sertânia, onde nasci, fui para Paulo Afonso na Bahia, quando achei que fosse morar em Paulo Afonso na Bahia fui pro Recife, quando achava que ia ficar no Recife vim pra São Paulo. Sou estrangeiro em São Paulo, estrangeiro no Recife, estrangeiro lá em Sertânia, de alguma forma também sou uma pessoa desambientada, fora do eixo.

 

Neste sentido o que eu fiz em eraOdito está feito de alguma forma nos outros livros. Angu de sangue é uma brincadeira “eraOditiana”: porque o Angu de sangue se você tirar a letra s e a letra e de “sangue” você tem “angu” — “angu de angu”… “angu de sangue”. O Contos negreiros, um livro abolicionista (no começo do novo milênio, que danado é isso?), também tem um deslocamento,  uma provocação. Balé ralé também, uma brincadeira “concretista”.

 

Eu gosto muito de assistir o que estou escrevendo. Então, os deslocamentos de eraOdito estão sempre diluídos nos outros trabalhos. Agora, de fato, é um livro mais para ver, não é para recitar. Teve até uma atriz, uma época, que fez uma brincadeira vocal com algumas frases do eraOdito: ela repetia, repetia, repetia até chegar a outra palavra no som. Ela ficava “a fé remove montanhas” [repete cada vez mais rápido], “monmaomaomaomé”, ela ia repetindo isso até chegar a “Maomé”. Não sei como ela fazia isso, mas conseguia chegar, com a repetição da palavra, “errar é humano”, “reauman”, “reú”, mas enfim.”

 

Balangandans: Aproveitando o ensejo, fale-nos um pouco de seu novo livro, Rasif , que parece ser uma “volta às raízes”

 

Marcelino: “O Rasif é um livro estrangeiro. Curiosamente, “Recife” é um nome de origem árabe, vem do árabe “rasif” e “mar que arrebenta” é o significado de “Pernambuco”, que vem do tupi-guarani. Então, na verdade, o nome do meu livro é “Recife, Pernambuco”, traduzindo Rasif: mar que arrebenta. Mas Rasif, para mim, não é lugar nenhum, um lugar que não existe, um lugar que eu criei (ou recriei) para habitar meus personagens. Meus personagens fudidos, desambientados, também, um querendo foder o outro. Então Rasif para mim não existe, este lugar onde o mar se arrebenta todo…

 

E o que acontece? Eu faço uma volta para minha terra, mas é volta para lugar nenhum. Eu falo de saudade que existe como um sentimento… como eu digo a você… coletivo. Mas eu não sinto saudade específicamente do que eu escrevi lá. Tem um conto chamado “O futuro que me espera”: tenho saudade de Catolé, sei lá mais o que tá escrito. Mas é como se eu volta-se para o Recife e não encontrasse mais este chão. É curioso que eu volte a origem do nome da minha terra, mas não é propriamente uma origem…

 

É uma armadilha, na verdade: eu crio um lugar que não existe mais, eu não pertenço a essa cidade, não pertenço a lugar nenhum. É a procura de um mundo que também não existe mais, as pessoas estão diluídas, confusas. A globalização está deixando tudo rasteiro. Então, de alguma forma, é um lugar agonizante. Ao mesmo tempo não é tão cheio assim de falta de esperança, acho que é um livro até que sinaliza um pouco algum lugar que seja possível habitar… não sei onde é.”

 

Balangandans: A produção dos escritores contemporâneos interfere em sua produção? 

 

Marcelino: “Absolutamente tudo influencia a gente. Acordar, ligar a televisão, ouvir música, caminhar na rua… A rua me influencia muito, ouvir a história dos outros, ouvir o que cada um fala. Tudo, programa, revista, tudo influencia.

 

Imagine então os escritores? Mas claro, dos antigos aos novos, blog me influencia muito, comunidade me influencia muito: comunidade “não sei o que”, “tenho ódio de não sei quem”, eu adoro. Nunca vi nomes tão bonitos quanto de blogs, têm blogs com nomes lindos já percebeu? Balangandans, que nome, que coisa bonita! Os posts têm nome bonitos, as comunidades…

 

Aí você vai pro Youtube, encontra tanta coisa. Tudo me influencia o tempo inteiro, você não pode estar tapado pra tudo, achando que sabe tudo, imagine… Eu fico encantado quando vejo alguns escritores de 23, 22 anos escrevendo o que estão escrevendo hoje. Porque quem escreve hoje, tem uma velocidade de informação tão grande, tanta coisa a sua mão, perto de si, que se ele já escreve bem, ele tem um acervo maravilhoso, um arsenal maravilhoso. Eu lembro que eu com 20 anos, com relação a pessoas que eu vejo hoje escrevendo poesia, era um verdadeiro debilóide.

 

Agora há pouco tempo eu conheci o trabalho de um contista, um menino de 25 anos, ganhou o prêmio SESC de literatura, chamado Maurício de Almeida, publicou um livro chamado Beijando dentes. Um livro de contos maravilhoso, super maduro. Falei com ele, dei os parabéns, ele falou assim: “mas, rapaz, aqueles contos são antigos, eu achava até que estava outra fase, estou escrevendo outras coisas”. Eu digo: “escreveu aquilo quando, porra?”. Menino do céu, um livro pronto, maduro…

 

Porque eu acho que a gente se inspira nos grandes escritores, que nos formaram… mas todo mundo nos forma. Autores novos, autores que virão, que estão para nascer, música também. Chico Science? Quando Chico Sciense chegou, o que era aquilo? Quando chegou na cena musical brasileira… Com aquele batuque eu fiquei danado de feliz e querendo batucar também.”

 

Balangandans: Você parece, então, ser um entusiasta da literatura na internet… 

 

Marcelino: “Eu adoro tudo que é movimento. Estando na sua angústia em casa, aquela dor ancestral que você carrega há anos, e você liga uma tela de computador tem muita coisa acontecendo ali. Aquilo é um calabouço, é o rádio moderno [risos]… O caipira quando estava muito angustiado ligava o radinho para ouvir o que estava acontecendo pelo mundo, eu ligo o computador para ver o que está acontecendo pelo mundo. Aquilo é um buraco negro desgraçado.

 

Então acho ótimo, porra! Deixa as coisas se movimentarem! As pessoas tem muita resistência ao novo: “Ai, a internet tem muita coisa ruim”. Faço você a sua filtragem, você não é inteligente, não? Escolha você a página que tem que acessar, o que você quer ler. “Ah, mas que tem muito lixo… Ah, mas a internet deveria ter…” Ter o quê? Censura!? É isto, você quer que ela acabe? Deixa o povo se comunicar, escrever seus blogs… “Ah, mas que tem muitos sites pornográficos”. Deixa o site pornográfico! No limite, evidente, de lei porque tem gente que abusa mesmo. Mas deixa as coisas estarem, deixa as coisas serem.

 

Eu vejo blogs maravilhosos. Hoje você tira seu texto da gaveta para o mundo. Vai lá, comunica. Coloca seu texto para circular, troque idéias com as pessoas. Quantas pessoas eu conheci via internet? Eu queria saber se na época que a máquina de escrever chegou, as pessoas que escreviam na caneta tinteiro disseram: “é um absurdo… uma máquina” [risos]

 

E tem mais uma coisa, um certo medo. E a internet é um prato cheio. Você liga lá seu computador e está escrito “cuidado com o vírus número tal”, “o orkut vai acabar”. Deixa a porra do orkut acabar! O que eu posso fazer para o orkut não acabar? Nada! Eu quero que o vírus XXX foda meu computador, jogue meus textos no lixo… Eu faço de novo… É um medo o tempo inteiro, cuidado com isso, cuidado com aquilo, cuidado com seu cartão de crédito… Porra, então não tenha cartão de crédito!

 

Balangandans: Você aborda temas como a violência, o preconceito racial, a homossexualidade. Você considera a abordagem dessas questões um engajamento da sua parte? O que se pode dizer sobre literatura e engajamento nos dias de hoje?

 

Marcelino: “Toda vez que me perguntam de política, de soluções para a sociedade, eu tenho uma preguiça muito grande. Eu não tenho raciocínio prático para dizer como isso poderia ser resolvido, como aquilo poderia melhorar. Eu acredito que o que pode melhorar é dinheiro, o que pode melhorar é educação. Mas a literatura nunca vai dar isso. E eu escrevo… escrevo a partir de uma dor, de um incômodo e que fica mais ou menos registrado ali. E é o que fiz. Não fiz para melhorar, só registrei. Eu não escrevo para salvar ninguém, quem tem este discurso é a Igreja… O que posso prometer com a literatura? Nada. Se alguém quer procurar soluções para o mundo a partir do que eu escrevo está errado. Vai ler sociologia, antropologia, cientistas políticos e econômicos.

 

Agora, o que eu escrevo não está alheio ao mundo que eu vivo, as dores, as angústias, as merdas que estão aí. Sou um escritor do meu tempo. Não consigo não ser. Gostaria muito de escrever sobre, sei lá, a neve não sei onde. Adoraria, ser mais existencial… Mas eu não consigo, o peso é grande, as coisas me impactam muito. Quando eu vejo, estou escrevendo desta maneira, com estes personagens à deriva, à margem.

 

Trabalho com personagens muito fronteiriços, na linha do discurso, do demagógico. No que eu escrevo a voz é um personagem muito presente. Então, eu tenho que tomar cuidado para essa voz não ficar muito paternalista ou engajada demais. Somos todos opressores, todos oprimidos. Estamos todos no mesmo barco, na mesma merda.

Mas é o perigo que corro. Algumas críticas que saíram sobre o Rasif apontam, por exemplo, que este conto ficou demagógico, com um tom de denúncia demais. E alguns eu concordo até. Porque, eu repito, eu corro este risco. Eu prefiro correr este risco do que escrever frígido. Não quero escrever para ficar bonito, quero escrever o que está ali. E neste sentido eu sou fiel a esta minha repetição.

 

As pessoas confundem muito. Dizem: “você escreve sobre estes miseráveis, mas que solução você propõe?”. Rapaz, eu não tenho que dar solução nenhuma, é um conto artístico! Ou aquilo de “você da voz aos que não têm voz”. Dou voz a quem? Quem sou eu para dar voz? Eles têm muita voz, eles que dão voz a mim e eu escuto. Ninguém dá voz a ninguém, aquilo já é aperriado, é preciso abrir o vidro para escutar.

 

Eu fico incomodado com as pessoas que escrevem sem olhar para o outro. Tem que olhar para o outro, escutá-lo. Aí entra naquela coisa do hermetismo, de você ficar punhetando uma linguagem que não diz. Porque os artistas dos quais eu me lembro, são artistas que disseram alguma coisa, tiraram meu chão, me deram a palavra mais bonita ou mais cruel. João Cabral de Melo Neto, Bandeira, quando eu vejo um quadro do Van Gogh, aquela agonia… Quando saio de uma sessão de cinema, um filme como Laranja Mecânica do Kubrick, digo “puta que pariu, meu Jesus, que que é isso?”. Você é uma pessoa antes de assistir e se torna outra depois de assistir. Pega um soneto de Augusto dos Anjos… E tem que ter muita fidelidade àquilo que você escolheu como seu ideário artístico, porque sempre vai ter alguém para dizer o que você tem que fazer, o que você que tem escrever. Fidelidade aquilo que você quer e que muitas vezes está fora do sistema literária. Porque se você não tomar cuidado você está escrevendo sob o sistema literário, não está dizendo nada do que você queira dizer. Você só está reproduzindo…

 

Diga logo o que você quer e vai embora. Diga onde te dói, homem! Diga onde doí para não reclamar depois.”

 

Balangandans: Atualmente, fala-se bastante sobre a literatura das minorias. Por um lado, é um fato interessante que grupos constituídos por uma minoria racial ou social estejam produzindo literatura; por outro lado, tal subdivisão é rentável para as editoras e limitadora para os artistas. Você que escreve sob a perspectiva dos “excluídos”, o que tem a dizer sobre esse assunto?

 

Marcelino: “Faz de conta que não está gravando: eu sou um escritor burro. Veja bem, eu faço os livros tematicamente porque eu não sei fazer de outra maneira. Eu tenho os contos para fazer o livro depois. O que une estes contos? Tem vários negros aqui… e estávamos exatamente na época de cotas raciais, e assistindo tevê vi um tráfico de órgãos que vai de Recife para a África… E eu me apego a esta temática por uma questão de facilidade, facilita meu juízo porque os contos estão lá sem juízo. Então eu pego aquele nicho porque facilita mas eu quero provocar… 

Sagração da primavera”, quando eu escrevi este conto eu percebi “tem um livro aqui”. Era a questão da dança, da homossexualidade… eu tinha outros contos gays e fiquei pensando nestes temas. 

Rasif – Mar que arrebenta eu já estava um tempo com uns contos, “Homem-bomba”, “Maracatu”, “Da paz”, e eu percebia que a questão da globalização estava muito presente naqueles contos e resolvi reunir. Burramente, vou reunir um livro árabe porque livros árabes estão vendendo, eu quero que meus livros vendam. Eu me encho desta vontade ilusória, esta pretensão do nada. E conversando com uma amiga, Adrine, eu digo: “Adriene, eu tenho um livro árabe”. Aí, ela falou: “você sabia que o nome Recife vem do árabe?” e eu digo: “Adriene, eu tenho minha Arábia própria! Graças a Deus!”. Eu posso ganhar dinheiro com ela, eu quero ver também a minha pipa voar.                    
Então neste sentido, é um livro que trabalha com a minoria e tem este perigo. Mas sou verdadeiro, trabalho desta forma. Tem muita gente que fala:”Ah, você escreve sobre estes despossuídos mas mora na Vila Madalena”. Que coisa ridícula da porra, então eu preciso ser miserável para escrever sobre miséria. Eu escrevo porque dói. Dói e eu preciso escrever. Fico fudido com tudo o que acontece. Sei muito bem como foi minha chegada aqui em São Paulo, como é minha família, toda minha história. Eu carrego isso… 
 
Existe uma malandragem muito consciente na galhorfa de reunião dos meus contos, eu quero fazer uma provocação de mercado. Não digo na hora de escrever os contos mas na hora de reunir em livro. Quando eu reuno em livro me parece que eu estou fazendo uma crônica do momento que estou reunindo estes livros.”   
 
Assista ao vídeo da leitura de “O futuro que me espera”, conto de Rasif – Mar que arrebenta, o mais recente livro de Marcelino Freire.
  
 


3 Responses to “entrevista outubro: Marcelino Freire”

  1. 1 Maluy

    Fiquei emocionada com a leitura de “O futuro que me espera”, pq hj acordei com saudades de tudo isso aqui no no exilio paranaense, com uma votade danada de dizer “vou me embora agora mesmo, de hj não passa, aqui nunca foi a minha terra …saudades do futuro q me espera !”

    Parabéns pelo blog lindo,lindo!Adorei conhecer o trabalho de Marcelino Freire …e adorei a entrevista com o Kuki !!

    beijos doces

  2. 2 AtlaM

    Interessante a entrevista, não o conhecia. Chamou-me a atenção quando ele se refere ao mundo globalizado. Existe uma corrente esquerdista que coloca a Globalização como o ponto de luta, como o fim do mundo. “anti-globalizantes uni-vos”. Um pouco contraditório, Marx em seu Manifesto Comunista já dizia que a tendência é se aproximar mais os países em grandes blocos econômicos. A Globalização é isto. É inevitável lutar contra ela. A internet é isto! O desenvolvimento histórico criou os meios, agora os ditos querem tentar barrar porque sentem prejudicados com aquilo que fez. Não dá! Não tem como mais impedir os avanços, por isto sabiamente Marx dizia que o próprio capitalismo cria sua própria morte. A “gente” só dá uma mãozinha pra cair logo, mas vai cair. A luta, portanto, não é contra a globalização, mas contra o capitalismo. A globalização é apenas, aliás definição descrita por muitos pensadores, como uma aldeia global. Você se sente numa aldeia, como o entrevistado mesmo fala: “tem de tudo”. É uma quitandinha, uma mercearia, o que nós caipiras falamos, um local que se acha de tudo. Quitandinha global! Quem é contra a globalização?! Só meia dúzia de esquerdistas confusos politicamente que preferem tentar lutar contra a interação tecnológica, ou lutar contra bloco econômico, como se fosse possível impedir seu desenvolvimento. Em suma, acho que tem mesmo que traduzir a realidade em nossa volta sem cair no esquema maníaco de “só porque mora na Vl. Madalena não pode expressar a pobreza”, o autor expressa bem isto, pois não tem absolutamente nada de real esta idéia falsa que criaram. No fim, acho que causou uma vontade em conhecer algo mais do autor. E isto é o que vale, no fim!

  3. otima entrevista.
    eh interessante ver este ponto de vista de Marcelino ao qual eu conheco pouco (sou de sertania tambem, porem nao tive o prazer de conhece-lo, ainda!).
    lembrei da minhas dificuldades qd ele fala das mudancas de vidas, de lugares. hj moro e trabalho na libya, pais arabe, com particularidades interessantes.
    um dia trocarei ideia com esta pessoa intrigante.
    abracos e parabens.
    take care!


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