entrevista dezembro: Arrigo Barnabé

Dezembro: Balangandans entrevista Arrigo Barnabé

Arrigo Barnabé por Fernanda Serra Azul

Arrigo Barnabé - foto: Fernanda Serra Azul

Arrigo Barnabé nasceu em Londrina, PR, em 14 de Setembro de 1951. Em São Paulo, cursou a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (1971 a 1973) e a Escola de Comunicações e Artes (1974 a 1979), onde fez o curso de composição, no Departamento de Musica. Ainda na década de 1970, participou do Festival Universitário da TV Cultura com a musica Diversões eletrônicas.

Pianista e compositor,  Arrigo Barnabé lançou em 1980 o LP, Clara Crocodilo, uma ópera-rock, com estrutura baseada no dodecafonismo (influência que há algum tempo circulava apenas nos limites da música erudita) e letras que parodiavam a linguagem das histórias em quadrinhos. Seu LP seguinte, Tubarões Voadores (1984) recebeu o prêmio de melhor disco do ano pela revista francesa Jazz Hot.

Arrigo foi o porta bandeira da chamada Vanguarda Paulistana, movimento musical que existiu nos anos 80 na capital paulista, do qual faziam parte, entre tantos outros, Itamar Assumpção, os grupos Rumo e Premeditando o Breque, Luis Tatit, Vânia Bastos, Tetê Espínola e Eliete Negreiros. Esse grupo era muito heterogêneo, porém tinham em comum uma linguagem musical baseada numa temática mais urbana, desenraizada, universal e cosmopolita. Os elementos eruditos se mesclavam a um experimentalismo radical, lançados em discos independentes e com forte influencia nos  meios universitários.
Com trabalho singular na musica brasileira, Arrigo tem composições de características que vão do dodecafonismo a atonalidade. Seu trabalho é eclético, mesclando a vanguarda da música erudita contemporânea com música pop e rock pesado. Sempre na fronteira entre o erudito contemporâneo e o popular.
Leia abaixo a entrevista:

Balangandans: O disco Araçá azul (1972) de Caetano Veloso, o mais radical disco tropicalista, foi sumariamente rejeitado pelo público. Não lhe espantou o relativo sucesso de Clara Crocodilo (1980) – instantâneo mas pontual – em um ambiente tão esteticamente conservador?
Arrigo: Bom, isso aconteceu 8 anos depois. E o Clara Crocodilo era um disco de narrativas. Quer dizer, em termos literários era muito compreensível, muito mais que o Araçá. E tinha um discurso musical muito mais convincente. Araçá era um disco experimental, navegando nas ondas do trabalho do Walter Franco, e nesse sentido, Clara Crocodilo, apesar de todo o radicalismo musical, era mais pop, mais reconhecível.
Balangandans: Assistindo a um programa de televisão, soubemos que o projeto que culminaria no álbum Clara Crocodilo começou a ser idealizado quase uma década antes, em 1972. Isto porque as “canções”  – posso chamá-las assim? – eram compostas com técnicas de música erudita contemporânea. Pois bem: sua música em Tubarões voadores (1984) manteve o rigor técnico sem, no entanto, a mesma necessidade excessiva de tempo. Acredita que os procedimentos eruditos de vanguarda assentaram-se em seu método de composição?

Arrigo: Bom, eu não chamaria de canções. Naquele disco, acho que só a faixa “Instante” é uma canção. Talvez, a faixa “Sabor de Veneno” possa se inserir aí também, como canção, forçando um pouco. O Tubarões voadores já é um disco com muitas parcerias. Enquanto no Clara Crocodilo eu assinava sozinho, 5 das 8 faixas, em Tubarões voadores, acho que assinava somente a “Canção” do astronauta perdido. O resto eram parcerias.

Balangandans: Canções entre aspas: podemos estar enganados mas algumas faixas como “Sabor de veneno” de Clara crocodilo e “A Europa curvou-se ante o Brasil” de Tubarões voadores soam como canções de MPB – não radiofônicas, decerto, como todas as canções entoadas no Lira Paulistana. Havia uma intenção deliberada que estas ou outras composições soassem deste modo, sem que isto prejudicasse o projeto conceitual dos discos.

Arrigo: Quanto a “A europa curvou-se”, era um material que eu havia composto em 1977/78, uma primeira experiência com o dodecafonismo, tentando utilizá-lo em alguma coisa de raiz brasileira. Isso ficou como 1ª parte, o Bozzo Barreti fez a 2ª parte, então ficou uma canção, um “samba”, com 2 partes. Sabor de veneno já é um pouco mais complicada, mas eu já concordei com vocês na resposta anterior.

Balangandans: Você, em seus últimos trabalhos – Missa in memorian (uma para Arthur Bispo do Rosário, outra para Itamar Assumpção) – aproximou-se ainda mais da música erudita. Houve alguma frustração com os limites técnicos da música popular? Um disco como Suspeito (1987), popular – até um disco difícil pode ser popular – e inventivo, ainda ronda suas ambições musicais?

Arrigo: Bom, eu sempre penso em fazer alguma coisa, vamos ver…

Balangandans: Sei que a resposta parecerá imodesta, mas você percebe alguma influência de sua música em compositores mais jovens? Em que aspectos? Poderia dar exemplos?
Arrigo: Não sei, trabalhei com alunos do dep. da música da Unicamp, e os alunos da área de música popular realizaram um trabalho, “A beleza tem seu preço”, apresentado dias 8 e 9 de setembro deste ano, no centro de convivência de Campinas, onde se percebem algumas influências sim. Mas eles ainda não são conhecidos, espero que logo se tornem

Balangandans: Comente uma obra alheia, que tenha influenciado decisivamente a sua produção.

Arrigo: É difícil separar assim alguma coisa, mas eu diria que o mais importante prá mim foi ter estudado as invenções a 2 vezes de Bach, quando ainda era adolescente, em Londrina. Aquilo é realmente uma aula de composição.


Assista vídeo de apresentação de Arrigo Barnabé no Sesc Pompéia, no projeto Era Iluminada: Vanguarda Paulista (19/08/2007)

 


One Response to “entrevista dezembro: Arrigo Barnabé”

  1. 1 Felipe

    Muito boa a reportagem.


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