entrevista janeiro: Kléber Albuquerque
Janeiro: Balangandans entrevista Kléber Albuquerque

Kléber Albuquerque por Fernanda Serra Azul
Kléber Albuquerque é natural de Santo André/SP e lançou seu primeiro cd em 1997, 17.777.700, pela Dabliú Discos, com direção artística de Mário Manga. A faixa “Barriga de Fora” foi a que ganhou maior destaque, ficando entre as vinte mais pedidas do ano pelos ouvintes da extinta Rádio Musical FM.
Seu segundo disco, Para a Inveja dos Tristes, foi lançado em 2000 pela mesma gravadora e contou com a participação especial de Fábio Jr. na faixa “Isopor”. Neste mesmo ano, com “Xi, de Pirituba a Santo André” Kléber foi um dos finalistas do Festival da Música Brasileira promovido pela Rede Globo.
Finalista em muitos outros festivais, em 2001 conquista o primeiro lugar no Festival de Avaré, um dos mais respeitados do país com a música “Logradouro”, parceria com Rafael Altério. No reveillon de 2001 grava, junto com os compositores Élio Camalle, Luiz Gayotto e Madan, o álbum UmdoUmdoUm, o primeiro do milênio.
Kléber inicia 2003 com a temporada do show “Amanhã Vai Virar Hoje”, no Teatro Crowne Plaza, com participação especial de Ceumar, Vanusa, Mirian Maria e Gero Camilo. Neste espetáculo focou o lançamento do cd Faça Virar Música, um trabalho artesanal com capa feita em tecido. No mesmo ano fez a direção musical e compôs a trilha para a peça “Desmontando Uma Alma Boa” da Cia. Teatraria Paraíso e, em parceria com Gustavo Kurlat, para o espetáculo “Crime & Castigo”, da Escola Livre de Teatro.
Em 2004, participou do projeto São Paulo Recebe Maranhão, onde recepcionou o artista maranhense Josías Sobrinho, tendo como mestre de cerimônias Zeca Baleiro, no Sesc Pompéia, e do projeto Novo Canto, com participação da cantora Eliana Printes, no Sesc Copacabana. Juntamente com Tata Fernandes, Rubi, Gero Camilo e Ceumar, criou o grupo Canto de Cozinha, uma performance musical e teatral regada a muita poesia em formato acústico. Com Tata Fernandes estreou no teatro Paiol de Curitiba o show “Parêntesis”, apresentado também na Feira da Música de Fortaleza.
No ano de 2005 ficou em cartaz no Tusp com o show “O Centro Está Em Todas As Partes” com participação de Rubi, Carlos Careqa e Chico Saraiva; e com o show “Parêntesis” ao lado de Tata Fernandes. Ainda lançou o disco O Centro Está Em Todas As Partes com shows nos Sescs Consolação, Vila Mariana e Santo André; e com o grupo Canto de Cozinha fez temporada no Centro Cultural São Paulo e tocou no Mercado Cultural da Bahia.
Pelo selo Sete Sóis, em 2006 lançou o seu quarto cd, Desvio, que traz uma parceria inédita com Zeca Baleiro. Neste ano também gravou participação nos programas “Bem Brasil” e “Sr. Brasil”, da TV Cultura; e no programa “Talentos”, especial da TV Câmara. Com Ceumar, Rubi, Tata Fernandes e Eliana Printes participou do Festival de Inverno de Paranapiacaba. Também foi convidado de Zeca Baleiro em uma das edições do Baile do Baleiro e abriu o show de Rita Lee para 20 mil pessoas em Santo André.
Em 2007 estreou o show “Sambas Trânsgênicos e Canções Di_gesta_s” com a “Mini Orkestra de Polka Punk” no Teatro Municipal de Santo André, passando pelo Sesc Pompéia e pelo Palácio das Artes, em Belo Horizonte. O show recebeu destaque na Veja São Paulo e no Portal da Veja São Paulo.
Leia abaixo a íntegra da entrevista que nós do Balangandans fizemos com Kléber Albuquerque:
Balangandans: Recentemente Chico Buarque mostrou-se receoso com o destino da canção que, segundo ele, estaria morrendo – prova disto estaria na ascensão do rap. Esta não é uma visão hegemônica, decerto, há quem diga que o rap é justamente a essência da canção. Arriscaríamos dizer que uma canção como “Xi, De Pirituba a Santo André”, parceria sua com Rafael Altério, cantada de modo próximo da fala, possui alguma ligação com o rap. Você concorda que exista essa ligação? O que você acha do rap, especificamente do rap nacional? Você compartilha da mesma opinião que Chico Buarque?
Kléber: A opinião de um mestre como Chico Buarque faz a gente pensar bastante a respeito, mas não acho realmente que a canção esteja morrendo. Talvez haja um certo tipo de canção que, por anacronismo, se não morreu, deve estar na UTI, mantido artificialmente por aparelhos. Agora, a canção do modo como a entendo, esse abraço entre palavra e som, me parece que ainda continua a ser uma fórmula bastante eficaz de inoculação do sonho e da poesia diária de que necessitamos. E, sim!, acredito que ainda necessitamos de sonho e de poesia, por isso penso que continuaremos ainda por um bom tempo a ser assombrados pela canção. É curioso notar como essas coisas vivem acabando: a canção morreu, o samba morreu, o rock errou… No entanto continuamos assobiando pelas calçadas.
Quanto ao rap, não acho que ele fuja tanto assim á regra, especialmente nesta época em que o avanço tecnológico recicla e liquidifica as hierarquias do gosto, destruindo castelos e construindo no lugar shoppings centers com os tijolos derrubados. Para mim o rap também é canção e tem tanto valor estético quanto a bossa nova, por exemplo. Aliás, ambos os ritmos convivem harmoniosamente diluídos em qualquer tecladinho Casio.
“Xi, de Pirituba a Santo André” tem o pé nessa tradição de cantar falado, que pode ser observada no rap, mas também na embolada, no repente e na moda de viola, por exemplo. É condizente com o personagem da canção – um vendedor de bugigangas em um trem – esse cantar apressado, tentando escapar da fiscalização. Se cantasse como João Gilberto, demorando-se nas segundas menores, certamente o personagem teria sua mercadoria apreendida.
Balangandans: Sua canção “Não posso ficar”,joga explicitamente com o sucesso de Adoniran Barbosa “Trem das Onze” – tanto que em seus shows, o público se confunde e chega a cantarolar a canção do grande sambista. Este procedimento – colagem na letra e/ou melodia da canção fazendo referência a outras canções – existe na MPB há algum tempo, embora tenha ficado obscuro para a maioria dos ouvintes (diferente do seu caso). Como você pensa o diálogo com a tradição cancionista? Qual efeito você acredita que isto surte no público?
Kléber: “Não Posso Ficar” é uma homenagem aos clássicos da música brasileira. É uma homenagem a Adoniran Barbosa, a Monsueto, a Jorge Ben Jor, compositores populares, mestres do ofício que abracei. O recurso metalinguistico de citar/colar/clonar os temas desses grandes sambas do passado abre caminho, no entanto, para o jogo da ironia com o próprio ato da criação artística, com a risonha dor de parto dessa cria híbrida - cabeça de tradição e patas de ruptura -, que é a canção. “Não Posso Ficar” tematiza justamente essa relação dialética, nem sempre pacífica, entre a tradição e a necessidade de transcendê-la.
Balangandans: Você utiliza-se bastante da internet como meio de divulgação de seu trabalho. Embora saibamos que o acesso a artistas que por algum motivo não condizem a um perfil mais midiático tornou-se mais fácil com este tipo de divulgação, ainda há muitas dificuldades para o artista independente. Afinal, o grande público geralmente procura a redundância, alguma sonoridade que lhe pareça familiar (explicando-se assim o mega-sucesso de artistas no “Myspace” que facilmente migraram para os canais mais tradicionais de divulgação). Como você encara estas questões dos nichos de mercado na indústria do disco nesta nova fase, quando a internet já não mais assusta tanto as gravadoras?
Kléber: A internet é um meio possível para a divulgação de trabalhos artísticos fora dos canais mais tradicionais. Num certo sentido, é a evolução dos fanzines. O fato da internet possibilitar que a informação circule de forma mais livre auxilia muito na divulgação de trabalhos artísticos que não contam com uma infra-estrutura de mídia por trás. Mas ela traz também um outro fenômeno interessante, que na minha opinião vai causar uma transformação maior do que a questão de divulgação e consumo da música. Cada vez mais a tecnologia permite que a arte possa estar nas mãos do não-especialista, do amador, do curioso. Penso que isto trará resultados surpreendentes, inclusive dissolvendo um pouco essa grande redundância estética que a gente observa hoje. Cada vez mais o consumidor de arte torna-se também produtor de arte. Então ouviremos cada vez mais música feita por não-músicos, assistiremos cada vez mais cinema feito por não-cineastas. Acho que o novo vem por aí. Quem sabe, num futuro próximo, nem precisemos mais de artistas.

Kléber Albuquerque - foto: Fernanda Serra Azul
Balangandans: Falando em divulgação, o fato de você ter sido um dos finalistas do Festival da Música Brasileira promovido pela Rede Globo em 2000, colaborou de alguma forma para a promoção da sua carreira?
Kléber: Colaborou, sim. Na época ampliou muito a quantidade de ouvintes para minha música. O trecho ferroviário entre Santo André e Pirituba tornou-se caminho turístico obrigatório para milhares e milhares de pessoas.
Balangandans: Você compôs canções para a trilha sonora de um espetáculo infantil, o “Sapecado”. Com é a sua relação com o universo infantil e, mais especificamente, com a música infantil produzida hoje no Brasil?
Kléber: Compus as canções do espetáculo “Sapecado”, mas não são canções propriamente infantis. São canções baseadas nas músicas sertanejas que meus tios e avós ouviam. Num certo sentido, são canções feitas para velhos, e não crianças. Mas são canções que trabalham com a simplicidade, o humor e a poesia da cultura caipira, o que as torna bastantes universais. Minha relação com o universo infantil é muito boa: não tenho filhos, o que é ótimo para manter o distanciamento crítico, mas tenho vários sobrinhos e afilhados. Gosto de brincar com eles, jogo bola, banco imobiliário, vídeo game, ando com balas no bolso. E vejo como são inteligentes. Por isso não acho que a música feita para crianças tenha que ser necessariamente ”infantil”. Tem muito adulto por aí fazendo música imbecil e dizendo que é pra criança.
Balangandans: Como se dá o processo de composição para você? O fato de você ter cursado a faculdade de letras por algum tempo contribui de alguma forma na composição das letras?
Kléber: Atualmente, meu processo de composição dá-se da seguinte forma: comprei um quadro branco, como aquele do dr. House, e o coloquei na sala. Então, quando tenho uma idéia, que pode ser um verso, um trecho de melodia, ou uma levada no violão, a escrevo no quadro. Como é muito gostoso escrever com aquela caneta e usar o apagador de feltro, toda vez que passo pela sala vou desenvolvendo a idéia no quadro, mudando uma palavra, invertendo um verso, experimentando algum acorde na harmonia até completar a música. Parece bobagem, mas o prazer de apagar com facilidade as anotações me deixa mais rigoroso na escolha de cada palavra.
A faculdade de letras contribuiu bastante para meu ofício de compositor, fornecendo-me um conhecimento mais amplo da língua e ferramentas para a compreensão crítica dos textos. Isto me trouxe uma saudável desconfiança das palavras. E também, graças aos bons professores que tive na faculdade, aprendi que posso subverter a maioria das regras que eles me ensinaram.
Balangandans: Como você analisa a cena musical contemporânea?
Kléber: Sou bastante otimista. Acho que em breve observaremos uma nova época de ouro na música brasileira, tão forte quanto a geração de Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil que, para sorte nossa, continua produzindo. Há hoje grandes artistas como Zeca Baleiro, Marcelo Camelo, Chico César, Vitor Ramil e Luciano Salvador Bahia, entre vários outros, criando canções maravilhosas. Há intérpretes incríveis, como Ceumar e Márcia Castro. Tem um monte de moleques inventando batidas perfeitas no computador, no celular, no cajon, nos cursos de alfaia dos Sescs. Estou tranquilo quanto ao futuro.
Balangandans: O que você está ouvindo ultimamente? O que indicaria aos leitores do Balangandans?
Kléber: Tenho ouvido muito os discos novos do Maurício Pereira e o de Mateus Sartori, um ótimo cantor que gravou um disco só com músicas de Dorival Caymmi. Tenho ouvido também “Pecadinhos” da Márcia Castro. Estou com vontade de ouvir Mallu Magalhães.
Uma indicação para os leitores inteligentes do Balangandans é O Coração do Homem Bomba, do Zeca Baleiro.
Balangandans: Essa pergunta não poderia faltar, já que você é o nosso primeiro entrevistado do ano: Quais os projetos para 2009?
Kléber: Terminei de gravar um disco com a Mini-Orkestra de Polka Punk, que está agora em fase de mixagem. Será lançado provavelmente em março. Quero fazer muitos shows com este disco novo e quero também encontrar tempo para alguns projetos paralelos que ultimamente venho desenvolvendo com outros artistas, como o Luiz Gayotto e o Carlos Careqa. Fui convidado para compor a trilha sonora de mais uma peça teatral e espero neste ano realizar um sonho antigo, que é montar uma big band de boleros pra fazer as pessoas dançarem de rosto coladinho.
Assista a vídeos de apresentações de Kléber Albuquerque:


Olá
Adorei a entrevista,é bom conhecer um pouco mais das pessoas que admiramos.
Observo que nos últimos tempos vem aparecendo muita gente talentosa como o Kléber,não que não existissem antes, é que hoje o acesso à informação é mais fácil com veículo mais rápido como a Internet, meio que a equipe do balangandans utiliza com muito brilhantismo.
Parabéns
Vcs começaram muito bem 2009!
Parabéns pela maravilhosa entrevista com Kléber!
Lamento que ele ainda não tem o reconhecimento que merece, como cantor e compositor!
O novo cd do Zeca Baleiro traz uma parceira com Kléber… a faixa “Tevê”! Que é uma das minhas preferidas!
Abraços e
Feliz 2009!!!
PS: Fernanda, parabéns pelas fotos…estão lindíssimas (como sempre)!
Também gostei da entrevista! Interessante o olhar crítico quanto à temporalidade musical necessariamente diferente entre o vendedor ambulante dos trens e a bossa nova de J. Gilberto. Acredito que ainda há ecos dos movimentos críticos e perturbadores do ABC paulista.
O otimismo fundamentado de Kleber quanto ao futuro musical é “alegrador”!
Bela entrevista!
Bom conhecer ideias e projetos daqueles que nos encantam com seu trabalho.
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