entrevista março/abril: Carlos Careqa

Abril: Balangandans entrevista Carlos Careqa.

Carlos Careqa por Fernanda Serra Azul
foto: Fernanda Serra Azul

Ator, cantor, compositor e produtor, Carlos de Souza ou Carlos Careqa, nasceu em Lauro Muller (SC). Passou infância e juventude no Paraná, onde estudou música e teatro, antes de radicar-se em São Paulo. Foi o responsável por várias trilhas para peças de teatro e trabalhou como ator em peças e filmes de cinema. Sua atuação no mercado publicitário, desde 1986, também é relevante, já tendo feito mais de 80 peças comerciais. No início da década de 90 apresentou-se em bares e casas noturnas de Genebra e Berlim. Em seguida atuou no grupo Pêlo Público, em São Paulo. Radicado em São Paulo desde 1991, em 1993 lança seu primeiro LP, Os Homens São Todos Iguais, com participações de Arrigo Barnabé, Tetê Espindolla, Cida Moreira, Itamar Assumpção, Tangos e Tragédias. A canção Acho, deste disco, foi escolhida por David Byrne, para integrar a coletânea BRAZIL TROPICAL 2, lançada em 1999. Em 1998 lança o segundo CD, Música Para Final de Século. Em 2004 lança o terceiro CD, Não Sou Filho de Ninguém. Em 2006 lança o quarto CD, Pelo Público. Em 2008 lança o quinto CD, À Espera de Tom, com canções de Tom Waits em português. Em 2009 lança o sexto CD, Tudo Que Respira Quer Comer(Bed/Independente).

Leia abaixo a entrevista de Carlos Careqa ao Balangandans.

Balangandans:  No início de sua carreira, nos anos 90, você participou de uma coletânea organizada por David Byrne, pelo selo Luaka Bop, intitulada Brazil Tropical. Como você foi “descoberto” por Byrne? O fato de você ter participado desta coletânea repercutiu internacionalmente?

  

Carlos Careqa: Tudo começa quando eu lancei o meu primeiro disco em 1.993. É um disco que eu comecei a produzir em Curitiba e acabei aqui em São Paulo. E essa música, “Acho”, eu gravei em Santo André, no Camerati. Porque o Arrigo, que é meu padrinho, ia lançar um disco lá e eu lancei também. Aí eu lancei o disco, eu achava que ia estourar, etc, mas não aconteceu nada e eu comecei a fazer planos de ir embora. Eu estava estudando alemão, queria ir morar na Alemanha de novo. Ganhei uma bolsa no Instituto Goethe para estudar alemão no primeiro trimestre de 95. E quando eu estava me preparando para viajar, no final de 94, começou a tocar no rádio a música “Acho”. Mas começou a tocar muito, de três a quatro vezes por dia. Então as pessoas começaram a querer saber quem era, eu fui o primeiro dessa leva de novos compositores dos anos 90 a tocar no rádio. Depois veio o Chico César, o Moska, o Lenine, enfim. Aí eu fui para a Alemanha estudar e lá fiz alguns contatos, e um dos contatos que eu fiz foi com esse cara Wolfgang Galler, que queria fazer uma coletânea de música brasileira com novos compositores. Ele veio para o Brasil em 94 e então a gente se reuniu, eu, Tatit, Wisnik, Arrigo, Tetê, Macalé… E ele fez uma compilação, pegou a marca de cada um e fez um disco chamado “Sonora Garoa”. Foi o primeiro CD inclusive que eu tive porque naquela época CD não existia ainda no Brasil, mas lá fora já era comum. E nesse CD estava a “Acho”. Antes também aconteceu uma outra coisa, para a minha música chegar a tocar na rádio, foi lançada uma coletânea da revista Áudio News volume 5, que falava da Vanguarda Paulista, e essa música também estava lá. Por isso os caras da rádio ouviram e por isso que todo mundo começou a tocar. Bom, voltando ao Wolfgang, ele começou a divulgar a coletânea aos contatos que ele tinha. E um dos contatos era o David Byrne e então ele mandou esse CD. Quando o David Byrne ouviu, a música “Acho” foi a que ele mais gostou. E ele estava preparando uma nova coletânea de Brasil Tropical, pois a primeira coletânea que ele fez foi a Brasil Tropical 1, que revelou o Tom Zé. Aí ele entrou em contato, mas isso só foi acontecer em 98, quando saiu a edição do Brasil Tropical 2, porque ele estava com problema de direito autoral e tal. E foi ótimo para questão de prestígio, mas não rolou muito retorno financeiro. Eu não fui fazer show na Europa por causa dessa coletânea, porque essa segunda coletânea do David Byrne não teve tanto impacto como teve a primeira. E também começou a onda do MP3, muita coisa entrou na internet… A única coisa que eu tenho de boa recordação disso é que eu comprei um microfone neumann, que é um microfone super bom, de estúdio, um microfone alemão, com os direitos autorais da música.

 

Balangandans: Nas suas canções e nas suas performances em shows notamos uma forte presença do humor. No entanto, não nos parece que este humor é gratuito, mas parece desempenhar uma função na sua obra, sendo constitutivo dela. O que você tem dizer a respeito?

 

Carlos Careqa: Desde pequeno eu sempre fui muito levado, eu sempre gostei de fazer uma graça. Depois quando eu comecei a estudar música, eu também tinha essa coisa, mas eu não estava sabendo como era. Eu já compunha músicas de humor em Curitiba, quando uma amiga falou: “Olha, tem um pessoal de São Paulo que faz um trabalho muito parecido com o que você faz aqui em Curitiba”, que era o pessoal do Língua de Trapo. Aí eu fui escutar e vi que realmente era. E era sincrônico, sabe? Só que eu lá em Curitiba e eles aqui. Mas eu nunca gostei de radicalizar… Eu tenho dois lados, um muito sério e um muito debochado. Eu fui sempre dosando o lado sério e o lado debochado e aí foi nascendo essa questão do humor. Quanto à questão de humor no show, eu assisto a muitos shows e eu acho muito chato quando o artista, o cantor, se leva muito a sério… Eu achei o máximo um show do Vitor Ramil que teve no Sesc Pompéia. Ele sempre foi um cara muito sério, sisudo, e estava fazendo umas piadas ótimas que davam uma leveza ao show. As canções dele já são muito angustiantes, se ele ficasse falando: “Pois é gente, pô e tal…”, não dá. Então ele fez umas piadas maravilhosas. Eu acho que quando a gente está no palco, também tem que ter um lado de entretenimento, onde as pessoas também se sintam confortáveis assistindo ao show. Isso em mim nunca foi pensado mas eu acho que respondendo à sua pergunta- eu pensei agora nessa resposta – mas eu nunca pensei assim: “ah, hoje eu vou dosar”. Eu falo o que eu tenho vontade, e às vezes eu tenho as idéias na hora e nunca mais repito. Eu já fiz coisas também que não deram certo, que não funcionaram. Mas eu gosto dessa aventura de fazer show sem roteiro definido: “Agora eu vou fazer isso, agora eu vou fazer aquilo”. Eu sei as músicas que eu vou tocar, mas eu não fico premeditando nada. Eu procuro me deixar envolver pela situação.

 

Balangandans: Como você articula o seu trabalho como compositor com o de ator?

 

Carlos Careqa: Isso já foi muito difícil de conviver, inclusive porque, principalmente aqui no Brasil, tem uma mania de dizer assim: “Ah, fulano é cantor, músico não pode ser ator”. E o ator não pode ser cantor. Para mim as coisas estão muito próximas. Não porque eu queira, mas para mim, é assim. Desde criança eu sempre quis ser ator. Não que eu quisesse ser ator… Eu não sabia direito o que era ser ator. Eu não sabia que tinha essa profissão.  Mas eu me lembro que no primário, a gente fez a encenação da Dona Baratinha e eu era o Ratão (risos). E foi muito engraçado porque a cena -  eu não sei exatamente como era a história – mas a cena era a que o seu Ratão entra na panela. Tem uma hora que ele cai dentro da panela, e eu dei um jeito de pular por cima da panela para encenar que eu tinha caído dentro da panela! Ficou ótima a cena, foi muito engraçado. E na sala de aula eu sempre era o mais palhaço. Eu sempre usava esse lado histriônico de ator que eu tenho. E daí até pensei depois em seguir carreira. Fiz vestibular para teatro na Fundação Teatro Guaíra. Passei e também passei para faculdade de direito. Mas aí fiquei em dúvida, fui falar com a secretária que era minha amiga e ela disse: “Olha, vai fazer direito que é melhor”. Aí eu fiz seis meses de teatro e depois comecei a faculdade de direito no segundo semestre, que também acabei abandonando. Mas enfim, essas coisas sempre vieram muito juntas, ator e cantor. Mas o que me move mesmo é a música. Eu decidi bem cedo, eu saquei que eu ia ser mais cantor e compositor que ator. Mas o teatro, a televisão, os comerciais, sempre acabavam me chamando e até me dando mais grana que a música. Comecei a fazer comerciais em Curitiba em 86. Eu já fazia comerciais lá antes de vir para cá. No começo era angustiante, porque eu dizia: “Meu deus, eu não sei o que eu sou”. Aí comecei a pensar e falei: “Eu sou os dois! Eu posso ser os dois”. E tudo bem. Aí eu fiquei tranqüilo. Eu não tenho uma carreira de ator de teatro. Eu sempre faço questão de dizer isso, porque aí é uma outra história. Mas se eu quisesse eu poderia ter e se eu receber uma proposta boa, eu vou fazer. O que eu não acho justo é ser ator e não receber dinheiro. Porque a gente vive num mundo que precisa de dinheiro o tempo todo. Precisa pagar o ônibus, precisa pagar o metrô, precisa comer e tal. Por isso que eu também não quis fazer carreira de ator de teatro.

 

Balangandans: Você participa tanto de projetos que concernem ao mundo do entretenimento, como o filme Avassaladoras, quanto de projetos ligados a um “mercado mais alternativo”, em que a qualidade estética da obra de arte é primada, como, por exemplo, o filme Canção de Baal, dirigido por Helena Ignez. O mesmo se dá na música. Trocando em miúdos, podemos dizer que você oscila entre projetos artísticos propriamente ditos e projetos voltados para o mercado. Há uma tensão para você nesse sentido? Como você encara esta dualidade?

 

Carlos Careqa: A gente quando faz qualquer tipo de coisa, pelo menos eu penso assim, eu não consigo pensar em resultado, eu consigo pensar apenas no que eu vou fazer. E se eu posso fazer eu vou fazer direito. Quando eu fui fazer Avassaladoras, eu sabia que era um filme que não tinha um objetivo artístico. Mas eu fui fazer porque eu já tinha feito outros filmes com a Mara Mourão e tinha tido um resultado bom. Eu fui lá fazer e fiz o meu melhor. Eu acho que vai continuar assim. Se eu entrar no mainstream eu vou agir do mesmo jeito, não importa se eu estiver trabalhando na Rede Globo ou na TV Cultura… Eu serei sempre o mesmo. Quer dizer, eu acho que eu serei. Porque o resultado não depende do artista. Quem monta o filme, quem produz, quem vende não é a gente. Eu garanto o resultado disso aqui, que é o meu disco novo, que eu fiz do começo ao fim. Eu fui o Office-boy e o presidente da empresa. Mas quando é filme, quando é cinema, a gente é mais um instrumento dentro da história.

Essa coisa da arte, do entretenimento, é uma coisa que me preocupa muito também. Eu faço esse questionamento. Mas eu acho que quem está fazendo não tem controle, sabe… Nenhum, não tem controle nenhum mesmo. É como uma casa que você projeta. A pessoa que projeta a casa, a arquiteta, ela tem um controle parcial mas se o pedreiro ao invés de colocar um tijolo colocar um explosivo ali, a arquiteta pode até ser responsabilizada mas ela não vai se sentir culpada porque ela não estava lá, tijolo a tijolo, para ver o que o pedreiro ia fazer.

 

Balangandans: Mas só para completar, você falou do cinema e depois citou a sua própria obra musical como aquilo que você consegue controlar mais. Mas e a propaganda da Volkswagen, que também é produção sua?

 

Carlos Careqa: Eles sabiam que eu sabia falar alemão, mas a criação não é minha. A idéia não é minha. Eu fiz uma tradução da música, que é simples, é só o primeiro verso. Aí a agência queria um cara, aliás, eu nem apareço. Quem aparece é um alemão sambando. Eu só cantei o jingle.

 

Balangandans: Mas você incorporou, às vezes canta nos shows…

 

Carlos Careqa: O pessoal começou a pedir. Na época da propaganda eu fiz uma entrevista no Jô Soares e até ele mesmo pediu para eu cantar lá. Virou um negócio assim no submundo da internet, as pessoas começaram a passar a letra um para o outro. Porque agora é que se tem essa possibilidade de se colocar o áudio, mas no começo da internet era muito complicado. Enfim, a gente interfere até certo ponto, mas chega uma hora que você não interfere mais. Eu sinceramente estou cansado de ser alternativo. O Brasil não tem estrutura para suportar, para apoiar artistas alternativos. A gente fica mendigando às vezes shows em lugares como SESC, como prefeituras e é horrível para gente isso, porque tem muita concorrência. A gente sofre muito porque aí eles ficam comparando Carlos Careqa com Lobão, Carlos Careqa com Lenine, entendeu? O Lenine tem um ótimo trabalho, mas ele está na indústria fonográfica, ele tem essa estrutura de indústria fonográfica. Eu não tenho essa estrutura, então eu não posso ser comparado a ele. Mas o leigo, quem não conhece, coloca tudo na mesma prateleira. Puxa, como é que eu vou concorrer com a Rede Globo, com a EMI ou com a Warner se eu não estou lá no meio? E nos EUA, o que eu ouço falar é que tem um mercado de música alternativa muito forte, música universitária, etc. Inclusive a Mônica Salmaso, o Guello, já foram para lá fazer shows nesse circuito. Eles fazem quarenta, cinqüenta shows em dois meses e tem um resultado. Aqui não… Aqui é muito amador – no bom sentido – mas aqui o que nós temos de bom? Temos o SESC, mas o SESC não dá conta de todo mundo.

 

Balangandans: Acho que isso tem a ver até com o avanço do Capitalismo. O Capitalismo lá é mais avançado do que aqui, e acaba suprindo todos os nichos de mercado…

 

Carlos Careqa: É, eu acho que sim. No começo do plano real em 94, a gente se contentava quando conseguia tomar um vinho regular. Não tinha essa oferta de vinho no mercado como tem hoje. Hoje você vai a qualquer boteco da esquina, em supermercados, você tem vinhos maravilhosos, italianos. Você pode escolher. Você quer gastar quanto, dez, vinte, trinta, quarenta… O vinho tem a ver com essa história. Quando as pessoas começaram a ter mais dinheiro, elas puderam começar também a gastar. A questão do vinho retrata bem essa história do poder aquisitivo das pessoas. E o cara que tem dinheiro e que é um consumidor de música, ele prefere consumir o que já está atestado pela grande mídia. Ele não vai arriscar coisas como Carlos Careqa, como no caso de vocês, que fizeram essa opção de arriscar no alternativo, porque vocês quiseram isso, é uma busca pessoal. E São Paulo tem isso. Essa coisa é muito pequena em termos de Brasil, não representa muito.

Eu sempre falo, meu público em São Paulo é no máximo de cinco mil pessoas. Não que as cinco mil venham em todos os shows. São cinco mil pessoas que me conhecem de fato. Aí elas se revezam, algumas vão no SESC, outras em shows de prefeitura, algumas me conhecem da televisão e nunca me ouviram cantar. E essas pessoas, são as mesmas que frequentam todos os shows, frequentam os show da Ceumar, do Kleber Albuquerque… Quando esse mercado aumentar, se ele aumentasse, aí a gente ficaria feliz de ser alternativo. Mas no caso, a gente fica triste, porque é desanimador fazer um trabalho que você sabe que tem qualidade, ou que você pelo menos busca a qualidade e ficar batendo nas mesmas questões sempre. Porque eu poderia até estar fazendo shows em outros lugares mas, o acesso que a gente em à mídia é muito caro e aí fica complicado.

 

Balangandans: Agora vamos falar mais detidamente de seus CDs. Nos shows de Pelo Público você proferia uma frase que era: “Vamos vulgarizar o raro e rarear o vulgo”.  Podemos tomar tal frase como um projeto seu, que perpassa sua obra?

 

Carlos Careqa: Isso é exatamente uma resposta à pergunta anterior, que é:” Vamos vulgarizar o raro e rarear o vulgo”. É uma frase de um poeta curitibano chamado Werneck de Capristano. É o seguinte, se por exemplo, a música do Tchan fosse uma música rara e que ninguém nunca tivesse ouvido, e você ouvisse, ia falar: “Nossa, que legal, é meio kitsch, parece interessante.” Mas como é uma coisa muito vulgar, que tocou demais, ninguém aguenta. E eu tenho certeza de que se eu fosse exposto à mídia do jeito que foi o Tchan, muita gente iria me odiar. Por exemplo, o Mozart, se você tocar muito, também enche o saco. O que eu proponho com essa frase é o equilíbrio. Eu não gosto de Tchan, eu acho uma música chata e mal feita, mas eu até suporto que algumas pessoas gostem. O duro é você ser bombardeado 24 horas por dia com a mesma música. A música do gás que é do Beethoven, é uma música maravilhosa, mas ninguém suporta. Então eu acho que poderia ter um equilíbrio entre as coisas. Quando eu cheguei em São Paulo, eu queria fazer uma mistura de MPB com rock’n roll aí eu fiz o disco do Pelo Público. Montei um power trio, baixo, guitarra e bateria e eu no violão e na voz. E a gente fazia os shows assim. Aí não rolava, as pessoas achavam estranho e eu abandonei aquele projeto e fui para o segundo disco que é o Música para Final de Século. Mas aquilo ficou lá no passado e eu precisava recuperar e recuperei, graças a deus, porque apesar das pessoas acharem estranho, não gostarem, é um disco que faz parte da minha história e eu não queria enterrar o meu passado.

Eu não tenho preconceito com gênero musical. Eu tenho preconceito quando a coisa é mal feita. E eu acho que lá tem músicas bacanas, que mostram um lado meu, enfim…

 

Balangandans: E nós achamos que a capa do Pelo Público é uma referência à capa de Todos os Olhos do Tom Zé. Ou não é?

 

Carlos Careqa: Então, não é. Quando a gente fazia esse show em 93, eu juro que conhecia o Tom Zé só de nome. Eu não sabia desse Todos os Olhos, eu não sabia da capa. Eu vim a saber isso depois, pelo próprio Tom Zé em 94, quando em uma ocasião estive na casa dele. O Tom Zé não tinha estourado aqui no Brasil ainda e já estava estourando lá fora pelo David Byrne. Mas em 93, 92, 91, a gente fazia show do Pelo Público e a filipeta já era a púbis feminina. Então a idéia da capa não é do Tom Zé, do olho… A idéia da minha capa é a da púbis feminina. A gente fazia o desenho de um triângulo – era bem tosco – eu morava com um cara que era artista gráfico então eu pedi para ele fazer um triângulo com uns pelinhos. Eu cheguei a essa conclusão da capa com a boca, porque vi um cartaz de cinema sensual em Barcelona onde eles utilizaram o olho. Então apesar das pessoas acharem que tem essa coisa com o Tom Zé, não tem, mas eu não me incomodo com isso…

 

Balangandans: Seria até interessante o diálogo…

 

Carlos Careqa: Seria, mas não teve, não teve… O Tom Zé pode até ter achado, se ele viu a capa. Uma pessoa da internet ficou muito brava comigo por causa disso, disse: “Como você pode fazer isso? Você não precisa disso”. Porque tem gente que escuta a música e acha que o artista vai produzir aquela música pelo resto da vida. Então essa pessoa que é apaixonada pelo segundo disco, não entende que seria repetitivo eu ir para o estúdio fazer mais um disco como o Música para Final de Século. A minha tentativa é sempre buscar horizontes novos. E o Pelo Público é isso. Inclusive eu poderia falar também: “Pô, o Caetano está me imitando”, porque logo depois ele lançou o , mas foi contemporâneo, foi sincrônico. É claro que o Caetano não sabia de mim e nem eu dele. O disco dele também tem essa pegada de rock’n roll. Tem uma amigo que até disse que isso é coisa de quem faz 60 anos e que fica com esse complexo de juventude e tal.

 

Balangandans: Você falou de Tom Zé, você falou de Caetano. Você tem uma ligação com a Vanguarda Paulistana. Dentro da Vanguarda Paulistana, muitos artistas tem uma relação com o Tropicalismo. E você, qual a sua relação com o Tropicalismo?

 

Carlos Careqa: Eu nunca me liguei na minha juventude ao Tropicalismo. Eu queria fazer parte da Vanguarda Paulista. Tiveram vários momentos na minha carreira como músico. Teve o momento que eu não sabia nada, que eu fui seminarista, que eu só escutava música de igreja. Meu ídolo nessa época era o Padre Zezinho, que é maravilhoso, eu adoro ele. Ele faz umas músicas legais, diferentes das do Padre Marcelo. São músicas ótimas, muitos dos arranjos são feitos pelo Oswaldinho do Acordeon, os discos são bem produzidos, ele é um cara muito esperto. Depois do Padre Zezinho teve o Chico Buarque, que eu fiquei apaixonado, adorava tudo, tocava tudo dele. E aos 22 anos eu conheci o Arrigo Barnabé, através de uma fita cassete que o Fernando Vieira, que está comigo nesse disco, me deu. Aí eu fiquei louco, porque eu já ficava buscando coisas novas. O Caetano por exemplo, não era novo mais em 82, sabe? Eu queria uma coisa nova e o novo daquela época era o Arrigo. Aí eu fiquei louco, eu escutava o Arrigo mas achava que minha capacidade musical não era para isso. Eu pensei em desistir, juro. Eu fiquei 6 meses sem fazer nada… Aí depois eu saquei que aquilo era aquilo e que o meu era o meu. E depois eu descobri o Língua de Trapo, o Premê… Eu me deixei influenciar muito pelo Grupo Rumo. E comecei a sacar que o meu caminho era aquele. E claro, escutava muito Caetano, Gil, porque eu sabia como era a Tropicália… Mas nunca mexeu muito comigo, eu achei que era um movimento legal, mas nunca quis ser Tropicalista. Apesar de ter muita coisa de Caetano, Gil, Chico no meu trabalho. Eu ouvi isso a minha vida toda, toquei muito o repertório deles em bar. O Arrigo era impossível tocar com voz e violão. Também tocava Noel Rosa, Vicente Celestino… Mas a minha influência maior mesmo é Arrigo. Mas eu sei que o meu trabalho tem mais a ver com Caetano. Eu sou um seguidor, entre aspas, dessa mesma estética que ele segue, violão, voz, letra, canção. Eu faço canção. O Arrigo não faz muito canção. Ele tem um flerte com o rock’n roll, mas o lance dele é mais a música erudita. Ele faz esse casamento com os dois.

 

Balangandans: Você gravou um álbum apenas com versões de músicas de Tom Waits: À espera de Tom. No entanto, nas letras traduzidas, há uma adaptação para o contexto local, para o contexto brasileiro, de certa forma você adapta a estética de Tom ao Brasil. Por que tal adaptação e como ela se deu?

 

Carlos Careqa: Eu descobri Tom Waits em 86. E também começou a fazer parte das minhas influências. Mas quando eu falo influência, não é que eu vou lá e imito o que o cara fez. É uma influência que eu não sei explicar, é uma influência até humana. É uma coisa que penetra, que você escuta e fala: “Puxa, eu queria ter a capacidade de fazer uma música esteticamente original como ele faz”. Porque a música dele é muito simples, mas ele conseguiu uma timbragem para os instrumentos, um jeito de cantar, que deu um aspecto que parece que é uma coisa muito louca. Eu nunca pensei em traduzir Tom Waits, aliás, eu acho até uma coisa ridícula quem faz versão. Eu não gosto, eu acho que não precisa. Muitas coisas são melhores no original. Nos shows mesmo eu digo: “Gente, eu estou aqui fazendo uma homenagem mas ouçam o original, porque é bem melhor.”

Então em 86 eu comecei a ouvir, achava muito louco e tinha vontade de um dia cantar uma música daquelas, mas também me sentia incapaz. Eu achava que não ia conseguir. Até que em 98, no SESC Consolação, eu fiz um projeto chamado “Uma noite de popstar” em que cada cantor escolhia alguém para homenagear. E eu escolhi o Tom Waits, só que eu fiz o show todo cantando em inglês. E funcionou, foi ótimo, mas eu sacava que só eu estava me divertindo porque só eu estava entendendo as letras. O Brasil não fala inglês, imagine inglês com aquele timbre. Aí eu comecei a experimentar. Eu já tinha feito uma versão de Time. E eu percebi na poesia do Tom Waits, que ele usa muita figura de linguagem, expressão idiomática. Eu acho injusto quando você vai fazer uma versão, uma tradução, você inventar uma coisa que não tem nada a ver com a letra, eu acho ridículo. Mas se você vai fazer uma versão e  ele fala que “está chovendo gatos e cachorros” (raining cats and dogs) como na música Time, eu digo que “está chovendo canivete”. É a mesma sensação. Eu procuro ir pela sensação da poesia. Eu acho que tem que adaptar.

Eu acho que eu fui feliz em algumas versões – não em todas – porque eu procurei seguir o sentimento do Tom Waits. Eu procurei entender a poesia dele. E foi uma coisa que ficou germinando na minha cabeça durante 20 anos sem eu perceber. Vinte anos que eu fiquei escutando Tom Waits e sem intenção, como fã mesmo. Quando eu fui fazer as versões, eu já estava muito dentro do universo e eu fui atrás das canções que eu mais gostava, esse foi o critério. Eu não fui pelo critério intelectual, etc.

 

Balangandans: Agora fale um pouco do seu mais recente CD, Tudo Que Respira Quer Comer.

Assista ao vídeo da resposta de Careqa:

 

 

 

 Assista abaixo a uma apresentação de Carlos Careqa.

 

 Para assistir a mais vídeos de Carlos Careqa acesse: http://www.youtube.com/SerraAzul ou http://www.youtube.com/carloscareqa


2 Responses to “entrevista março/abril: Carlos Careqa”

  1. 1 Carmem

    Parabéns! Meninas e menino!
    A entevista está muito legal e o filme de apresentação do novo CD está ótimo.


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