entrevista maio/junho: Marcelo Jeneci
Maio / Junho: Balangandans entrevista Marcelo Jeneci.

foto: Fernanda Serra Azul
Marcelo Jeneci é um compositor que tem o trabalho calcado em sua própria vivência musical. Instrumentista desde muito cedo, com apenas 25 anos de idade, traz uma trajetória de 10 anos de estrada como músico acompanhante de grandes nomes da música popular brasileira. Tem parcerias com Zé Miguel Wisnik, Arnaldo Antunes, Vanessa da Mata, Luiz Tatit, e Chico César entre outros. Além disso, Jeneci já tem duas músicas em trilhas de novelas globais.
Leia abaixo a entrevista de Marcelo Jeneci ao Balangandans.
Balangandans: Você é conhecido por acompanhar, como instrumentista, artistas já consagrados, como Arnaldo Antunes e Chico César. Como se deu a passagem do músico instrumentista para o compositor? Quando você sentiu que era o momento certo para engatar uma carreira solo?
Jeneci: Acho que ainda não senti esse momento certo. Às vezes as coisas vão acontecendo sem que a gente se de conta, né ?
Mas posso dizer que aos poucos fui percebendo que a linguagem da canção é diferente da linguagem da música instrumental, da música do virtuoso, do cara que domina o instrumento. Como instrumentista eu segui pelo caminho que me preparava pra acompanhar qualquer artista. Fiquei estudando e estudando, fiz isso na prática por dez anos tocando com muita gente legal. De uma hora pra outra, comecei a fazer o caminho inverso, o caminho do “desaprendizado”. Comecei a abrir mão dos vícios que as habilidades excessivas me traziam, até que me vi caminhando para as coisas mais simples. Comecei a compor melodias mais simples e a cantar essas melodias ao em vez de apenas tocá-las. A grande mudança se deu quando resolvi comprar um instrumento que eu não sabia tocar. Comprei dois logo de cara: um violão e uma guitarra. Como eu não tinha domínio nenhum , não fazia idéia de como tocar naquele instrumento, a música começou a vir de forma despretenciosa, sem passar pelo ego. Acho que foi a partir desse momento que as composições começaram a nascer, fazendo com que nascesse a vontade de apresentá-las em um show próprio.
Balangandans: E, como compositor, você tem como parceiros também grandes nomes da MPB, pessoas que ajudaram a tecer a história de nossa música, como o já citado Arnaldo, Wisnik, Tatit … De que modo compor com artistas desta envergadura contribui para a formação da sua linguagem musical?
Jeneci: Esses grandes compositores que você citou são meus amigos. Todos eles eu conheci por uma costura natural da música e da vida. Fui tocando com um e com outro, fazendo shows com o Luiz [Tatit], com o Zé [Miguel Wisnik], com a Zélia [Duncan],com o Arnaldo [Antunes], com a Vanessa [Da Mata]… De repente eu me vi cercando essas pessoas super interessantes e depois me vi num momento em que eu não sabia se era eu que estava cercando ou se era eu quem estava sendo cercado por eles. A experiência de compor com eles está sendo maravilhosa. Tem sido um grande aprendizado. Pra mim, compor canções é uma coisa muito nova, o fato de eu ter tocado durante dez anos com todos eles não me coloca num outro lugar a não ser no começo novamente. Mas num começo rodeado de grandes mestres da canção. Fazer músicas com eles é uma delícia de experiência. Fico atento, vou aprendendo com cada um deles. Muitas das músicas que fiz em parceria com estes grandes letristas, tem muitos versos meus. Faço um bom pedaço da letra sempre. Quando eu não consigo terminar uma letra sozinho, saio pedindo ajuda pra quem estiver perto. Ligo pro Arnaldo, pro Zé, pro Luiz , pra Alice Ruiz e sigo em busca de socorro. Até aqui essa ajuda tem sido maravilhosa e enriquecedora. Compor com Alice Ruiz, compor com Zé Miguel, compor com Arnaldo, compor com a Vanessa, com a Zélia Duncan, com o Tatit, são experiências bem diferentes umas das outras e isso é muito bom . Como somos amigos, tudo é sempre agradável, natural e divertido.

foto: Fernanda Serra Azul
Balangandans: Você comentou em um show que, atualmente, os grandes meios de comunicação e parte da indústria fonográfica têm voltado o olhar para a música alternativa, aquela que circula em casas paulistanas como o Grazie a Dio, o Tapas Club, o Studio SP… Você citou, inclusive, o fato de o Caetano Veloso estar programando uma temporada de shows no Studio SP; a que você atribui esta atenção que a grande imprensa e a indústria vêm dando ao alternativo?
Jeneci: Na década de 60 o mundo explodiu mais uma vez . Era a vez da liberdade musical e o começo do império fonográfico. Aos poucos essa liberdade musical que gerou tantas coisas boas deixou de ser interessante para o grande comércio dos fonogramas. O ideal passou a ser a fórmula de sucesso que durasse mais tempo. Hoje, no momento em que a gente vive o processo de declínio do império fonográfico e em que a música passou a ser consumida de forma desfragmentada e sem o monopólio das grandes gravadoras, me parece que a tal liberdade musical que sempre existiu voltou a chamar atenção da pequena, média e grande mídia. A cena independente, nunca deixou de existir. O Lira Paulistana existia como existe hoje o Grazie a Dio, o Studio SP, o Tapas. Na década de 80 e 90, como quem mandava ainda eram as grandes gravadoras, era mais difícil prestar atenção na música independente,que continuava acontecendo. Agora, com o acesso a tudo que está na rede, com a comercialização digital e com tantos grandes e consagrados artistas olhando pra cá, me parece que a tal liberdade musical que foi estrangulada pelas gravadoras, voltou a ser bem vista. O foco foi reajustado e mais uma vez o mundo está borbulhando. Nesse mesmo momento que me pergunta isso, a gente tem o mais brasileiro de todos os presidentes dos Estados Unidos na casa branca, Lula aqui no Brasil, e ao mesmo tempo RadioHead apontando o novo caminho musical e comercial! Não são apenas coincidencias, é a mudança. Os milagres estão sempre acontecendo, a gente é que não vê. E, como Caetano é aquele que tudo vê, não poderia ser diferente sua possível temporada no Studio Sp e seus últimos discos com cara de música independente.
Balangandans: A propósito, você costuma descobrir “novos talentos” pela internet? Você descobre música nova navegando por aí?
Jeneci: Eu sou muito preguiçoso pra ficar navegando. Eu uso a internet mas eu não fico no myspace tentando achar coisas novas. Eu fico tentando ouvir as coisas que já foram gravadas. Tem tantas músicas que já foram gravadas e que a gente nunca escutou direito… Estou curtindo ir atrás dessas agora. Eu nunca baixei uma música na internet, acho que eu nem sei fazer isso.
Balangandans: A canção “Amado”, é uma composição sua com a Vanessa da Mata e foi parar, na voz dela, na novela das 8 da Rede Globo – fato que deu à canção uma visibilidade incrível, todo o grande público conheceu sua música. No entanto, boa parte deste grande público não sabe que você é o compositor da canção, conhecendo apenas a intérprete, Vanessa da Mata. Como você se sente diante deste fato? Sente-se uma espécie de “espectro”,”fantasma”, já que todos estão cantando uma canção sua, mas não o sabem?
Jeneci: Eu não olho para isso como uma coisa do tipo: “que pena, eu não acredito que tem tanta gente cantando essa música e ninguém sabe que ela é minha também”. Pelo contrário, toda vez que eu ouço essa música eu fico mais feliz, porque eu percebo que ela já não é mais minha .Quando a gente compõe uma música, imediatamente quando ela fica pronta, ela passa a não ser mais sua. É como cortar o cordão umbilical, ela passa a subexistir como todas as outras que já existem. A música ficou pronta! Nos primeiros dias eu fico empolgado, mostro para os amigos mais próximos, não durmo direito… Depois que essa euforia passa, quando a música é gravada e as pessoas começam a escutá-la, menos minha ela vai ficando. Quanto mais público ela vai ganhando mais distante ela vai ficando. É assim que eu vou me tornando um ouvinte das minhas músicas . Pelo menos foi assim quando eu ouvi a música”AMADO” tocando na rádio e na novela. Não era um momento que eu parava e pensava: “Putz, fui eu que fiz, será que alguém sabe que fui eu que fiz?” Não, eu ficava ouvindo tentando ver o que era bonito, o que não era, e querendo que ela ganhasse mais espaço, porque no fundo o que o compositor quer é que a música não seja mais dele, que seja do outro. A gravação da Vanessa é linda – eu acho muito bonito ela cantando – acho muito bacana, o fato de ter acontecido com ela só me dá prazer. Se eu pudesse ter escolhido, eu escolheria ela para cantar essa música. E, no fundo, a verdade sempre aparece. A verdade sempre aparece, não tem como não aparecer quando tem verdade. Tanto é que você está aqui na minha casa me entrevistando . O fato de muita gente ter conhecido essa música e depois o Leonardo ter gravado uma outra música minha com o Arnaldo, “LONGE”, que também está tocando na novela da da globo, tem me deixado cada vez mais instigado. Penso assim: “Tem muita gente ouvindo minhas músicas antes de eu gravar meu disco, quer saber, vou começar a defender isso com unhas e dentes”, para mostrar as outras músicas também, já que não tenho somente essas .
Balangandans: Atualmente, percebemos que artistas de diferentes esferas não costumam estabelecer um diálogo sobre suas respectivas produções, como acontecia há um tempo atrás; de uma maneira geral, músicos, artistas plásticos, escritores, acabam atuando cada um em sua “área”, sem estabelecer contato intenso com as outras “áreas”. Você dialoga com outras artes? Porque você acha que tal isolamento das esferas vem ocorrendo?
Jeneci: Eu não sei dizer. Eu conheço poucas pessoas dessas outras esferas. Cineasta, por exemplo, eu não conheço nenhum pessoalmente. Das artes plásticas eu conheço por tabela a Laura Vinci, que é esposa do Zé Miguel, e a Marcia Xavier, que é namorada do Arnaldo. Não conheço mais porque eu também não vou atrás. É um desinteresse pessoal. Eu não sei dizer por que existe esta falta de diálogo. Eu, pessoalmente, não faço nada para amenizá-la. Eu devia procurar saber o que está acontecendo…
Mas acho que na música a gente vive num período de pouca paciência do grande público pra escutar coisas novas. Muitas pessoas querem escutar o que já escutaram, e quando se deparam com alguma coisa nova isso já incomoda. Em conseqüência disso muita coisa que aparece, aparece de forma achatada, previsível. Você vai em um mega show de um artista qualquer da grande mídia, e facilmente se depara com uma coisa achatada, você ouve as três primeiras músicas e consegue prever o restante do show. Poucos são os shows que passeiam pelas linhas horizontais e verticais, onde há uma coisa que te leva mais para o fundo e que depois te traz de volta. Raramente eu vou a um show que me leva para um caminho imprevisível . Eu não sei se a galera das outras artes tem olhado pra nós, os músicos, com pouca admiração por conta disso, mas acredito que tem gente que além de manter essa verticalidade, tem buscado nisso uma originalidade. Adoraria que minha música chama-se atenção de um cineasta, de um coreógrafo ou de um artista plástico.
Enquanto isso não acontece, sigo buscando a beleza em cada ma delas, como Walter Salles faz em cada um de seus filmes.

foto: Fernanda Serra Azul
Balangandans: Você fala bastante da cidade de São Paulo, pois nela há diversidade, efervescência cultural. Como este sentimento da cidade aparece em suas canções?
Jeneci: Sou paulista! Sou viciado nessa cidade. Acho que São Paulo cedo ou tarde reconhece o que é bom ! Acho que minha música não se parece com o lado caótico da cidade, como a música de Iara Rennó e Dona Zica. Mas como são tantas São Paulo por aí , em alguma delas eu devo estar.
Balangandans: Marcelo, você fala de experiências pessoais em suas canções, ou há um eu-lírico construído?
Jeneci: Algumas são experiênacias pessoais , outras não, como as que são feitas em parceria.
Balangandans: Em um show você disse que gosta de apresentar suas músicas ao público, “testar” o impacto das canções durante as apresentações, amadurecendo-as antes de gravá-las em um disco. Fale um pouco deste processo, desta “Obra em progresso”…
Jeneci: Esse processo foi muito praticado por Elis Regina e tantos outros que viajavam o Brasil inteiro e depois gravavam seus discos. Muita gente fez isso naquela época, mas isso se perdeu. No período em que o cd virou alvo de consumo, a pressa começou a mandar! As bandas e os artistas tinham que gravar logo e lançar pra vender mais e mais. Ficou meio de lado esse processo de montar o show, rodar o show e depois gravar. Esse é o processo que mais gosto, porque você faz uma turnê inteira que no começo é uma coisa, na metade é outra e no fim está mais rica ainda. É uma obra em progresso, como disse, Caetano é aquele que tudo vê! Eis a linha contínua. No fim vai estar tão amadurecido que o registro será sensacional. Ficar maturando, tocando, mostrando as músicas, tendo a chance de melhorar pra poder chegar no momento de tranqüilidade e de segurança pra gravar o disco é o que eu quero fazer. Eu busco essa maturidade em cada canção, fico plantando cada uma num terreno que eu acho que é fértil e tento achar o jeito de cantar de cada uma a cada show. Enquanto isso, vejo se essa ou aquela causam algum impacto, se as pessoas gostam , se tem gente querendo ouvir de novo e se existe uma demanda de público querendo um disco. Pra mim o cd não é o alvo, é conseqüência. Fazer com que ele seja uma conseqüência é o que eu quero fazer. Enquanto eu fico amadurecendo os shows, quem sabe não aparece alguém propondo uma parceria pra levar essa música mais adiante.

foto: Fernanda Serra Azul
Balangandans: E para quando podemos esperar o lançamento do CD?
Jeneci: Eu não parei para gravar nada. Gravo de forma caseira as músicas que coloco no myspace, mas… Acho que eu estou começando a me sentir seguro pra gravar este primeiro disco. Está rolando uma paquera com o AR da Universal. Mesmo na contramão das gravadoras fico tentando enxergar alguma coisa interessante com eles. Esses caras estão de olho no que está acontecendo e estão propondo parcerias interessantes. Por enquanto vou ficar concentrado em fazer os shows até o final do ano, se não pintar nada que possa me ajudar a gravar o disco como eu gostaria, darei um jeito de gravar com os amigos no começo do ano que vem no máximo! Quero fazer logo esse primeiro disco que será apenas o primeiro. 2010 está logo aí , é acreditar pra ver !
* * *
Assista abaixo a um trecho da entrevista:
Assista também ao vídeo da apresentação de Jeneci no show do Grazie a Dio:



Sem respostas ainda para “entrevista maio/junho: Marcelo Jeneci”