entrevista julho/agosto: Ana Rüsche.
Julho / Agosto: Balangandans entrevista Ana Rüsche.

foto retirada do blog da autora
Ana Rüsche é escritora paulistana. Publicou os livros de poesia Rasgada (Quinze & Trinta, Brasil: 2005; Ed. Limón Partido, México:2008, tradução Alberto Trejo, rev. Alan Mills) e Sarabanda (Selo Demônio Negro, Brasil: 2007). Em prosa, publicou o romance Acordados (Ed. Amauta, Brasil: 2007). Ministra oficinas de criação e cursos sobre arte contemporânea.
Leia abaixo a entrevista de Ana Rüsche ao Balangandans.
Balangandans: Apesar dos pesares, a recente produção musical encontrou no Myspace o lugar ideal para divulgação barata e de longo alcance. Embora exista uma profusão de blogs de poesia (das mais variadas qualidades, diga-se de passagem), não existe para a recente produção poética um espaço tão forte e tão extenso quanto este que a música alcançou. Por que esta disparidade (se é que ela existe)? Você acha que é possível organizar algo similar ao Myspace especificamente para produção textual?
Ana Rüsche: “Hum, boa pergunta, nunca pensei nisso – vamos nos arriscar juntos…
Imagino que o Myspace cumpra a dupla função de comunidade virtual e blogue, agregando pessoas e conteúdo: em lugar do músico criar o próprio site sozinho, no Myspace encontra a facilidade de montar uma página própria customizada, com direito à agenda de shows, fotos, vídeos e inclusive ao blogue. E, ao mesmo tempo, esta página está inserida numa comunidade virtual maior (como um orkut ou facebook), possibilitando a reunião de interessados no trabalho deste músico, de fãs ou simplesmente de curiosos, reunião que acompanha a troca de comentários, links, etc.
Por outro lado, arriscaria dizer que a interface de um blogue é uma forma que protege o autor contra a interação social intensa. Mesmo indicando links para outros blogues e possibilitando comentários, está claro que aquele pequeno endereço é um espaço pessoal, bem protegido e delimitado, muito menos dinâmico no que se refere às interações entre internautas. Ali não é necessário adicionar amigos, fazer contatos e colecionar fãs. Característica que pode ser ótima, veja, porque não se pertence a um sistema fechado, trata-se de uma rede mais difusa, menos proprietária, com uso de domínios próprios (.com, .org), assim como .blogspot, .worpress, .zip.net e outros. E, mesmo que haja certo coleguismo nas visitas de blogue (o cordial me-visita-que-eu-te-visito), parece que não temos assim tantos leitores desinteressados, a maioria de nossos leitores possuem também um blogue com pretensões literárias ou tentativas de – muito diferente da relação músico-ouvinte.
Evidente que seria possível criar um espaço comunitário assim. E talvez no próprio Myspace ou Facebook. Ou numa plataforma mais colaborativa. E talvez algumas ajudinhas formais seriam importantes: ferramentas para upload/download de textos e e-books, existir a categoria “poesia”. E, além, claro, de existir uma vontade coletiva de autores de se exporem a essa interação. E poderia então dar tudo errado. O risco é inerente à escrita. Seguimos engatinhando.”
Balangandans: Já que estamos falando sobre divulgação na internet e esta entrevista será publicada num blog, gostaria de perguntar se você percebe nos poemas publicados nos sites/ blogs alguma incorporação dos recursos da internet. Você acha esta incorporação necessária? Não pode parecer anacrônico um adolescente escrever sonetos parnasianos e publicá-los num espaço virtual?
Ana Rüsche: “Mais que anacrônico, penso ser uma indisposição crônica a publicação de textos na internet como se fosse idêntica ao papel (também sofro desse mal). O grandíssimo problema é que ainda copiamos descaradamente o modelo do livro para criar na internet, ou seja, dependemos de uma concepção pré-concebida do que seja o “poema”, como o ótimo exemplo do soneto.
Bem, forma é inseparável de conteúdo e intromete-se diretamente em seu significado, ainda mais se falando de poesia… Assim, um brave new world para todos nós é esse – procurar o poema nessas paragens brancas… Há mil coisas que poderíamos fazer e nos brecamos com esse medo bobo de abismo. Se os românticos alemães procuravam a Zauberwort, os irmãos Campos aboliram o verso, se o Raúl Zurita escrevia poemas nos céus de Nova York e no deserto de Atacama, cabe a nós construir o poema onde ele nunca existirá – no mundo virtual – e, por isso mesmo, continuará existindo.”
Balangandans: Para apertar mais uma vez a mesma tecla: muito se discute sobre o fim do livro (paralelo ao fim do jornal e ao fim do cd), que seria substituído pelos e-books e blogs, etc. O que você acha sobre esta possibilidade? Existe de fato indícios de que o livro está com os dias contados? E no caso de um romance ou de uma tese muito extensos? Com isso, a organização de poemas em unidade coesa (como são os livros) precisará ser alterada?
Ana Rüsche: “A pergunta fica ali como pulga encarapitada na orelha, mas sou da opinião que, à semelhança da trilogia das técnicas pintura-fotografia-cinema, o livro permanecerá. É um suporte bom, prático, com mercados e autores bem consolidados – talvez se altere via kindles, não sei. E, ao mesmo tempo, creio que florescerá uma arte/reflexão poética própria ao suporte eletrônico, como um perfil virtual da poesia escrita, um duplo, algo híbrido, que mescle autorias, linguagens, realidades, tão estranho que não conseguimos nem entender muito bem agora.
Por isso é difícil pensar em organização, em capítulos. O romance mesmo é um gênero novo na história da literatura ocidental, acompanha as fundações da indústria, nada mais natural que questionar a pertinência dessa forma. Puxando sardinhas, o poema sim é mais longevo, língua materna da humanidade, pois não é vinculado a uma forma de organização única, há desde os épicos, canções, ritualísticos, românticos, modernos. O poema não é exatamente uma forma literária, mas uma idéia de humanidade – tal qual a utopia, o poema nunca será alcançado, embora sempre seja perseguido e sentido em cada um de nós. E permanecerá.”
Balangandans: Você tem uma relação bastante profícua com as comunidades literárias de muitos países latino-americanos. Como se deu este interesse pela produção de nossos hermanos? O que as questões discutidas na poesia+crítica destes países pode acrescentar às questões discutidas aqui no Brasil (e vice-versa)?
Ana Rüsche: “Curiosidade por espiar em buracos pelo muro. O que se faz ali do outro lado? Como se diz crocodilo? O quê, ‘cocodrilo’? e todos dão risada, pois cometemos os mesmos erros das crianças quando aprendem a falar. A curiosidade transformou-se com o amor, que constrói pontes impensáveis. E com a amizade, o afeto…
A troca literária do Brasil com o resto da América Latina é muito complexa, principalmente porque o comum é pensarmos que são culturas e línguas muito semelhantes, quando na realidade não o são – um engano que pode trazer tanto complicações, quanto deslumbramentos. Até a idéia de ‘hermano’ é bem interessante – se somos irmãos, somos daqueles que não se vêem faz tempo e é preciso matar saudades aos poucos e perguntar das novidades com o devido tato.
Uma boa contaminação-importação seria o contato com um tipo de poesia com visão mais utópica, esse ir-além, esse poema que invade em enxurrada qualquer formalismo, domando a forma em função do que é escrito e jamais o contrário, extrair um delírio necessário e ao mesmo tempo que faça um enorme sentido (não o mero delírio pelo delírio). Cito o peruano Enrique Verástegui – que enfrenta Dante, desafia a lógica aristotélica, a física quântica, a cosmologia, a ficção científica, os futuros e passados – e concebe um big bang de todo um universo poético:
EL TIEMPO CIRCULAR
Si el planeta es circular entonces el tiempo también lo es y el big-bang,
expandiéndose y contrayéndose
hasta ser un átomo, inicia un nuevo ciclo.
Essa ótica poderia dialogar com certo tipo de nossa querida poesia resumida ao cotidiano, resignada às pequenas coisas (eu tb pratico e adoro, claro) – poderia ser um ar fresco, um balão de oxigênio, uma bomba H, não sei.
Outra contaminação-importação seria refletirmos mais sobre a própria imagem do que seja um poeta. Lembro dos chilenos ótimos da Poética Pokemona. Com senso de humor e ironia, desafiam a noção de poesia como produto da alta cultura e reivindicam uma abertura a um outro lugar para o poema. Trabalham com símbolos de tribos urbanas, algo muito mais próximo dos que ocupam carteiras nas escolas e danceterias, retirando do poeta seu ar enfadonho e autoritário. Isso tudo a serviço da crítica aos frutos da ditadura chilena, ao desinteresse dos pais e do Estado pela juventude largada numa tela de computador e em danceterias, à repressão da homossexualidade, ao racismo, ao subdesenvolvimento nas idéias. A Poética Pokemona traz isso, uma urgência por um retorno à ternura, ao restabelecimento de contato (vide texto de Carolina Benavente Morales) – me soam dois versos de Jorge Teillier (1935 – 1996), apropriados como epígrafe do pokemonístico livro Brian, El Nombre de Mi País em Llamas, de Diego Ramirez:
“Los jovenes no pueden volver a casa
Porque ningún padre los espera”.
O que podemos contaminar-exportar? Muito, mas não saberia dizer o quê. Há que perguntar do outro lado da fronteira.”
Balangandans: Para finalizar, quais autores que você sugeriria para um leitor interessado em pessoa, mas ainda distante da produção contemporânea?
Ana Rüsche: “Bem, indo pelos meus gostos duvidosos… Ana Cristina César como tia mais velha, Paulo Ferraz como primo por parte de mãe e Lilian Aquino como irmã caçula. E posso incluir o Jorge de Lima como contemporâneo? Na realidade, qualquer livro de poema é um desafio. E ele só existirá no momento em que seja lido.”


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