conexões novembro: Marcelino Freire

  Novembro:

   Marcelino Freire
Fernanda Serra Azul

Marcelino Freire - foto: Fernanda Serra Azul

O conexões do mês de novembro traz o escritor Marcelino Freire.

Marcelino nasceu na cidade de Sertânia, alto sertão de Pernambuco. Vive em São Paulo desde 1991. Escreveu, entre outros, Angu de Sangue (Contos, 2000, com fotos de Jobalo), eraOdito (Aforismos, 1998 – 2002) e BaléRalé (Contos, 2003), esses publicados pela Ateliê Editorial, São Paulo. Em 2005, lançou pela editora Record o livro Contos Negreiros, com o qual ganhou o Prêmio Jabuti 2006. Em agosto de 2008, lançou, também pela Record, o volume de contos RASIF – Mar que Arrebenta, com gravuras de Manu Maltez. Em 2002, idealizou e editou a “Coleção 5 Minutinhos“, inaugurando com ela o selo eraOdito editOra. É um dos editores da revista de prosa “PS:SP“, lançada no ano de 2003, e um dos contistas em destaque nas antologias Geração 90 (2001) e Os Transgressores (2003), publicadas pela Boitempo Editorial. É criador e curador de vários eventos literários, entre eles, a Balada Literária, que reúne dezenas de escritores nacionais e internacionais pelo bairro paulistano da Vila Madalena. Recentemente, seu blog eraOdito ( www.eraodito.blogspot.com ) foi apontado, em pesquisa feita pela revista Bula, como um dos vintes blogues mais influentes da rede.

Leia abaixo, a resposta de Marcelino à sessão Conexões:

” O livro que me influenciou imensamente foi o “Estrela da vida inteira”, do Manuel Bandeira. O Bandeira foi o primeiro poeta, escritor, autor que eu li. Eu tinha nove, dez anos de idade e li um poema dele, O Bicho, e fiquei apaixonado. Então eu fui atrás dos poemas dele. Em casa ninguém lia mas mei irmão mais velho, que estudava, foi atrás e então eu consegui comprar o “Estrela da vida inteira”. Eu lia os poemas e achava aquilo tão bonito, e quis, a partir da leitura dos poemas do Bandeira, ser o Bandeira. O cara era doente, tuberculoso, pernambucano. Eu também era pernambucano. Aí pensei: eu posso ser ele!  Então eu quis ser doente, eu quis ser tuberculoso, adorava aquela idéia de morte, aquela coisa triste:

“Belo belo minha bela
Tenho tudo que não quero
Não tenho nada que quero
Não quero óculos nem tosse
Nem obrigação de voto
Quero quero
Quero a solidão dos píncaros”…

Aquilo era bonito demais. Eu ficava lendo isso. Minha mãe abria o quarto, eu tava lá trancado lendo. Ela pensava: “Esse menino deve ser donte!”. E foi isso. A partir de Manuel Bandeira eu tive contato com outros poetas, descobri o movimento modernista, fui acompanhando a biografia dele, descobri João Cabral, já mais adiante Drummond…

O teatro também me influenciou muito. Eu fiz teatro no Recife, dos nove aos dezenove anos. Eu queria muito ser ator. Quando descobri que tinha muito pudor para ser ator, desisti. Gosto muito de texto de teatro. Até hoje releio peças teatrais, como Nelson Rodrigues, por exemplo. Uma peça que me infuenciou muito e que eu assisti ainda adolescente, foi “Esperando Godot”, de Samuel Beckett, porque ele me mostrou um outro teatro. Eu tava acostumado com aquele teatro linear… E quando eu vi “Esperando Godot”, aquela coisa de esperar, e vem e foi, aquele texto maravilhoso, aquele jogo de diálogos, uma coisa original, diferente, não linear.

Agora saindo um pouco do teatro, outro autor que me infuenciou muito também foi  Julio Cortázar. Foi quando eu descobri que podia se escrever curto. Eu não sabia que podia se escrever curto. Eu não sabia que poderia escrever algo como “Instruções para dar corda no relógio”.

Não posso esquecer do Graciliano Ramos, outro que também foi foda quando eu descobri. Foi o primeiro prosador que eu li. Li primeiro o “São Bernardo”.

Mas a poesia de fato me formou. Eu acho até que todo prosador deveria ler muito mais poesia. A poesia tem uma coisa de ritmo, de fala, de visão de mundo… Por isso eu acho que é muito mais fácil ser prosador que poeta. Porque o prosador, no meio de um conto e outro, pode fazer uma gambiarrazinha e jogar uns contos ruins. Com a poesia isso não acontece.”

Leia também a entrevista que o Balangandans fez com Marcelino Freire em outubro:

Assista ao vídeo da leitura de “Trabalhadores do Brasil”, conto de Marcelino Freire:


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